Centralidade, Projeto Anjos da Rua e a Cracolândia

Por Gabriela Vieira



Fonte: Arquivo pessoal de Maristela Verzbickas


Considerando o conceito de Centralidade sendo, de acordo com o descrito no artigo Regulação Urbanística do Brasil de Raquel Rolnik, “uma cidade que fica dividida entre a porção legal, rica e com infra-estrutura e a ilegal, pobre e precária, a população que está em situação desfavorável tendo muito pouco acesso a oportunidades de trabalho, cultura ou lazer”. A porção cuja concentração de recursos e infraestrutura consiste na centralidade, e o quadro de contraposição entre uma minoria qualificada e uma maioria com condições urbanísticas precárias relaciona-se a todas as formas de injustiça social. 

Essa situação de exclusão pode se traduzir em vários aspectos, tendo a renda como um dos mais evidentes. Alguns dados do IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, revelam que o Brasil alcançou um aumento razoável nos indicadores sociais, porém não houve progresso na distribuição da renda, pois a minoria dos brasileiros possui altos salários e a maioria ganha pouco ou nada. Sendo o principal indicador de renda de um país, a renda per capita é o resultado da soma de tudo que é produzido em uma nação no ano. Para conceber a renda per capita é preciso dividir o PIB pelo número de habitantes, o resultado é o que corresponde ao valor das riquezas que caberia a cada indivíduo.


Renda dos brasileiros e a extrema pobreza


Conforme dados do FMI e do Banco Mundial, a renda per capita brasileira é de 8.020 dólares, quase a metade da Argentina com 12.460 dólares, país este que possui um Produto Interno Bruto muito menor que o brasileiro. 

Atualmente no Brasil, segundo o IBGE, cerca de 49 milhões de pessoas recebem até meio salário mínimo per capita e cerca de 54 milhões de brasileiros não possuem rendimento. A extrema pobreza subiu no Brasil e já soma 13,5 milhões de pessoas sobrevivendo com até 145 reais mensais. Vale lembrar que, aqui no Brasil, o indicador de pobreza do Bolsa Família, por exemplo, é de 89 reais, abaixo do parâmetro de 145 reais utilizado pelo Banco Mundial.

E o número de miseráveis vem crescendo desde 2015, invertendo a curva descendente da miséria dos anos anteriores. De 2014 para cá 4,5 milhões de pessoas caíram para a extrema pobreza, passando a viver em condições miseráveis. Este número é recorde em sete anos no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A alta do desemprego, os programas sociais mais enxutos e a falta de reajuste em programas sociais como o Bolsa Família aumentam a condição de miséria dos mais pobres em nosso país. 


Importância da caridade


Com a lacuna deixada pela insuficiência da ação do Estado nestes bolsões de pobreza, percebemos como essencial qualquer ação que possa não apenas amenizar, mas quem sabe, até auxiliar na melhora das condições de miséria de modo definitivo destas populações. Neste ínterim, ONGs e Projetos Filantrópicos, com vertentes religiosas em sua maioria, agem para desenvolvimento de outro panorama nestes ambientes. 

No que tange ao trabalho religioso, impelidos pela concepção cristã de caridade, grupos de voluntários católicos praticam uma assistência baseada na idéia do amor fraterno às famílias carentes, mendigos, doentes, crianças abandonadas, deficientes físicos e mentais, assistência essa que não visa interesses pessoais ou recompensas materiais. Para exercê-la, segundo essa concepção, o critério exigido é a vontade de servir ao próximo, por ser um dever cristão para com os desfavorecidos, demonstrando, assim, um espírito nobre. 

Podemos observar que a caridade é difundida como um dever cristão, como possibilidade de demonstrar perante a sociedade um caráter bondoso e, como possibilidade de fortalecer os laços de solidariedade entre os membros de uma comunidade. Tendo por premissa básica o amor ao próximo, ela é considerada a base que levaria homens e mulheres a terem sentimentos e virtudes que seriam inerentes à natureza humana,como a bondade, a capacidade de perdoar, de acolher, a humildade, a aceitação mútua.



Projeto Anjos da Rua e bairro Rudge Ramos


A instituição Anjos nas Ruas está situada dentro da Paróquia da Igreja São João Batista,no bairro do Rudge Ramos, São Bernardo do Campo, no Grande ABC.

Seu trabalho consiste em levar cerca de 600 marmitas para a área denominada Cracolândia, situada no centro de São Paulo. Cerca de dez voluntários se organizam na cozinha da igreja para preparar as refeições doadas. 

O projeto foi criado em abril de 2018, conta com doações e colaboração do comércio e pessoas locais no Rudge Ramos, e realiza mensalmente a distribuição de alimentos, bem como o trabalho de “acolhimento, atenção e carinho para os usuários da Cracolândia”, explica Vânia Maria de Lima, 55, missionária no grupo Anjos da Rua. A iniciativa de criação foi de Maristela Verzbickas, 54, hoje coordenadora da ONG. 

A história do bairro sede da instituição confunde-se com a trajetória da Paróquia São João Batista. Foi em volta da pioneira Capela que começou a crescer o bairro. A Igreja é a pedra fundamental, o ponto de partida de todo Rudge Ramos. Se em 1891, o bairro limitava-se a uma pequena vila que reunia algumas casas humildes, pequenas vendas e muito distante do Centro de São Bernardo do Campo, o progresso não demorou a chegar ao local. As estradas foram alargadas para dar passagem aos primeiros caminhões que transportavam carvão. Aumentavam o número de casas e junto, os estabelecimentos comerciais. Mas o centro de tudo era a velha Capela.

Em janeiro de 1958, iniciam-se os trabalhos para a construção de uma nova Igreja, que pudesse acolher todo o povo e que se tornasse um ponto de referência não só para o bairro e para a cidade, mas também para toda a região. 

O bairro em questão deve ser considerado como uma Centralidade, pois primeiramente se situa estrategicamente localizado, na divisa com os municípios de São Paulo, São Caetano do Sul e Santo André, sendo assim um dos mais importantes e históricos de São Bernardo do Campo, além de ser dotado de muitas indústrias e prestadores de serviço, tem grande participação no desenvolvimento econômico da cidade sem deixar de lado o ambiente residencial extremamente acolhedor, urbanisticamente planejado, com ruas largas, arborizadas, muitas praças e parques. Outro ponto forte que indica Centralidade, é a forte característica da população de estudantes que circula pelo local, pois abriga uma das maiores universidades do estado de São Paulo, a Universidade Metodista, inaugurada em 1938 como a primeira de nível superior da Região.

É de suma importância que, considerando a realidade estruturada do bairro situado, que a ação voluntária fosse de encontro com a necessidade de outro lugar, como assim o foi feito no projeto Anjos da Rua. Poucos outros locais concentram tantos elementos de vulnerabilidade social quanto a Cracolândia, e são tantas as melhorias necessárias para que a condição que ali se estabeleceu possa vir a ser modificada.  

Como o relato de Vânia, que reitera a importância do projeto para a localidade da Paróquia no áudio abaixo:



Sem acesso a oportunidades de trabalho, cultura ou lazer, ou seja, as oportunidades de crescimento circulam nos meios daqueles que já vivem melhor, o que sobrepõe são diversas dimensões da exclusão que incidem sobre a mesma população mais pobre. Do ponto de vista espacial, essa progressiva separação entre as partes ricas e pobres da cidade potencializa ainda mais as tensões, à medida que os pontos de interface social vão sendo cada vez mais mediados por aparatos de controle e segurança, fragmentando e cerceando ainda mais o espaço urbano.



Cracolândia: História, Centralidade e Degradação


A Cracolândia, é uma denominação popular para uma área no centro da cidade de São Paulo, nas imediações das Avenidas Duque de Caxias, Ipiranga, Rio Branco, Cásper Líbero, Rua Mauá, Estação Júlio Prestes, Alameda Dino Bueno e da Praça Princesa Isabel, onde historicamente se desenvolveu intenso tráfico de drogas e meretrício. Fica mais propriamente situada no bairro de Santa Efigênia, e coincide parcialmente com a região da Boca do Lixo, antiga região cinematográfica da cidade.

Nos anos 1990, a área chamada de Cracolândia e se tornou uma da regiões mais degradadas da cidade de São Paulo. Quando se trata de questões sociais crônicas e de extrema vulnerabilidade, a mudança do quadro não se dá de modo repentino, e os desafios contemporâneos do planejamento urbano na região, diante da insuficiência orçamentária do Estado e da ampliação da atuação para o acesso e preservação de seu patrimônio histórico e cultural.

A Degradação dos espaços urbanos é comum em grandes cidades ao redor do mundo. Derivada principalmente da alteração da dinâmica espacial dentro de uma mesma cidade ou região, os usos são alterados e, possivelmente, a lógica de uso e domínio também são modificados. Quando este tipo de alteração ocorre acompanhado de uma tendência decadente, ou seja, sem investimentos ou melhorias na infraestrutura, temos um processo de deterioração do espaço público, também denominado Decadência Urbana. 

As causas desse processo podem ser variadas, como desindustrialização, declínio populacional, aumento do desemprego, instabilidade política e altas taxas de criminalidade, resultando numa paisagem inóspita e desoladora.

O surgimento da Cracolândia, na região da Luz, tem ligação também com a degradação urbana pela qual passou o bairro após a desativação do Terminal Rodoviário da Luz. Entre 1961 e 1982. Com a desativação do terminal e sem um plano de reurbanização da área, boa parte dos imóveis fechou as portas. Nesse caso, em junho de 1986, quatro anos após o fechamento da rodoviária, a prefeitura decidiu demolir as marquises do antigo terminal. Na época, o entorno do prédio abandonado já era ocupado por moradores de rua.

Os anos de degradação urbana que se seguiram após 1986 na região da Luz se agravaram a partir de 1990 com a chegada do crack. O policiamento na região não era suficiente para combater o problema. A droga, já naquela época, era distribuída para diversos pontos da cidade, entre eles a região central. Foi ali que o crack, por conta do preço baixo e efeito potente, ganhou espaço e passou a substituir outros tipos de entorpecentes como cola de sapateiro, éter, maconha e cocaína.


Descaso do Governo


A degradação urbana da região da Luz colaborou em muito para o surgimento e permanência da Cracolândia. No lugar em se que existe a degradação urbana, a tendência é de perpetuação do crime. O fluxo de usuários na região da Estação da Luz é o reflexo de um problema social maior, de pessoas que optaram por um local de fácil acesso e concentração, sejam elas moradoras ou então usuários que estão apenas de passagem. Porém, em sua maioria, os cidadãos de baixa renda são os principais componentes do problema do vício do crack e moradores da região denominada Cracolândia.

A partir de 2005, a prefeitura de São Paulo começa a intervir neste espaço através de uma estratégia mais firme, aumentando o policiamento local e fechando hotéis e bares ligados ao tráfico de drogas e à prostituição. Centenas de imóveis residenciais ou utilizados por pequenos comerciantes foram declarados de utilidade pública e desapropriados a fim de atrair investimentos privados e empresas do setor imobiliário. Em 2007 é lançado o programa Nova Luz, destinado a promover a requalificação da região, o que poderia proporcionar maior acesso e mais qualitativamente aos museus e instituições culturais da área.  Entretanto, quando se trata de questões sociais crônicas e de extrema vulnerabilidade, a mudança nem sempre é simples ou completamente eficaz.

O interesse pela revitalização da área vem do fato da cidade já não tem mais para onde crescer, e para tanto, os olhos se voltaram para a região, sempre degradada e desconsiderada pelo Poder Público. Tornou-se extremamente atrativa, afinal sua localização é central, com toda a infraestrutura disponível, todos os meios de transporte à disposição, entre outros fatores. Planos urbanísticos começaram a ser discutidos, apenas como reações externas a quem lá habita, ocupa, situa sua vida naquele território.

Essas pessoas que compõem um contingente invisível, que não produz rentabilidade para o sistema, atrapalham. Como podem ser tão invisíveis e atrapalharem tanto? Resta apenas sua retirada. A contínua desconsideração e desrespeito por parte da nossa sociedade, consigo, só trará fissuras maiores, só mudará o endereço, como o ocorrido em 2012.

Qualquer ação sobre a área precisa ser precedida de amplo diagnóstico, sob todos os aspectos: fundiário, social, ambiental, imobiliário, econômico, serviços públicos. Tal diagnóstico, além do aspecto técnico, deve ter envolvimento de todos os usuários da área (proprietários, moradores, trabalhadores de toda ordem, prestadores de serviços e comerciantes, cidadãos que frequentam o local). Sem o mapeamento detalhado, qualquer projeto estará fadado ao fracasso face os inúmeros segmentos sociais que compõe aquele tecido urbano.

Continuar desconsiderando os cidadãos que se relacionam com a região fará manter o grau de resistência, a manutenção de hábitos com os lugares e as pessoas. Aliás, cidadãos não são peças de jogo que podem ser mudadas em razão de uma estratégia revestida, aparentemente, de lógica matemática. As cidades existem em razão, e para, pessoas, não coisas. Portanto, a finalidade principal, é que a política urbana tenha por objetivo o bem-estar dos habitantes e que seja executada reduzindo as desigualdades sociais e regionais existentes. Ou seja,não seria caso de polícia e sim de humanidade.

Neste sentido, segue outro relato de Vânia de Lima, este sobre como é trabalhar na Cracolândia:


Investimentos públicos para atender aos brasileiros em condição de extrema pobreza seriam excelentes. Contudo, esta projeção esbarra num momento em que o Governo está focado no aprofundamento do ajuste fiscal e na ideia da redução do papel do Estado. Uma das maiores críticas ao governo é a política econômica adotada possui falta de foco nos programas sociais, sendo que o país tem um quadro preocupante de crescimento da pobreza, que incluía uma população que passava fome.

Enquanto houver um representante popular tiver proferir que “Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira, é um discurso populista”, iniciativa de caridade como a instituição Anjos da Rua fazem toda a diferença na realidade social e na vida das pessoas que ali habitam. 

Como exemplificado no tocante depoimento de Vânia, agora sobre a transformação do rapaz Roberto, quando indagada por mim acerca de algum fato marcante que ocorreu durante seu trabalho na Cracolândia:


Foto: Roberto, ex-morador da Cracolândia, que encontrou sua família através do intermédio de Vânia Lima. 
Fonte: Arquivo pessoal de Maristela Verzbickas

Por fim, que a falta de investimentos ou recursos não sejam convertidos em descaso, muitas vezes crônico, com aqueles que mais precisam do Poder Público, ainda mais nesses tempos, onde museus queimam e a perda de patrimônio histórico cultural são iminentes.


Comentários

  1. Esse trabalho é extraordinário,além de alimentar fisicamente de quem precisa alimenta nos também o nosso espírito, o pouco que participei mudou muito a minha vida ,pra melhor e quero continuar ajudando sempre.

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